Erika Januza: “Acredito e muito na lei do retorno, como 2 e 2 são 4!”

Atriz, um arraso como a Raquel, de O Outro Lado do Paraíso, comenta sobre representatividade, preconceito que passou e lembra: o mundo dá voltas!

Erika Januza está dando um show com sua Raquel em O Outro Lado do Paraíso | <i>Crédito: Fabrizia Granatieri
Erika Januza está dando um show com sua Raquel em O Outro Lado do Paraíso | Crédito: Fabrizia Granatieri

Segundo a Bíblia, “Os humilhados serão exaltados”. E com a personagem vivida por Erika Januza, na novela global das 9 não é diferente! Raquel, vinda de um quilombo no Tocantins, foi depreciada pela patroa Nádia (Eliane Giardini), que não se conformava em ver uma empregada negra flertando com seu filho, Bruno (Caio Paduan).

Contudo, como o mundo dá voltas, dez anos depois a bela retornou à casa da família para quem trabalhou estudada e na condição de juíza, deixando, sobretudo, Nádia, de queixo caído.

Assim como no folhetim, Erika conta que já passou poucas e boas por causa de sua cor. E afirma: chegou a ser impedida até mesmo de tirar foto na porta da Globo. Porém, dois anos depois do ocorrido, voltou ao mesmo lugar como protagonista da série Suburbia (2012).

Hoje, a estrela, que conquistou o público e inúmeros fãs com seus fortes papéis, arrasa na trama de Walcyr Carrasco.

TITITI – Como é ter a oportunidade de fazer uma personagem tão marcante como a Raquel?

Erika Januza – Parece clichê falar isso, mas a Raquel é um presente em minha vida. É uma honra poder falar sobre quilombolas e preconceito, não só racial, mas também social. Essa é uma discussão muito necessária! Novela pode ser entretenimento, mas nos permite ajudar, de alguma forma, quem está ali assistindo. E isso é um ganho duplo. Se cada uma das pessoas que se identificarem com esse drama melhorarem sua autoestima depois de assistirem à história, já vou me sentir realizada.

Fez algum teste para o papel?

Não, foi um convite maravilhoso! Já tinha muita vontade de trabalhar com o Walcyr, minha inspiração desde Xica da Silva (1996). Aí veio a Raquel. Eu estava no fim de Sol Nascente (2016) quando vieram me falar sobre a oportunidade. Chorei horrores, emocionadíssima.

Acha que Sol Nascente foi um passaporte para sua ascensão na trajetória?

É um pouco difícil saber. Tenho pouco tempo de carreira, comecei há cinco anos, em Suburbia. E cada personagem que aparece pra mim, levo sempre como a chance da vida. Pego o papel, estudo e aprendo com as coisas que ele traz. Não sei, na verdade, se foi Sol Nascente, mas acho que, talvez, um conjunto de tudo que se passou tenha me levado adiante.

O que entendeu a respeito dos quilombolas?

Descobri que tem vários aqui no Rio. Um deles é o Sacopã, na Lagoa. Fui até lá, passei uma tarde conversando com um deles, o Luiz Pinto (músico, líder da comunidade), que me recebeu super- bem! Falamos sobre várias coisas, como a tentativa de pessoas buscando tomar aquela terra, o que traz uma luta diária para ele. O Luiz é quase um advogado, entende de todas as leis para poder defender os quilombolas, de tanto que eles têm que se proteger. E eu vi que armam coisas, sabe? As pessoas não aceitam o direito daquelas terras conquistadas, existe uma dificuldade constante que eles passam.

Chegou a conhecer alguma comunidade quilombola no Jalapão (TO)?

Sim! Fui no quilombo Mumbuca, perto de Mateiros. E descobri que foi com uma família de lá que começou a tradição de capim dourado, e se espalhou pelo Tocantins. Nos meus dias de folga de gravação, ia para o quilombo. Conheci pessoas e até fiz amigos, conversei muito com eles. Aprendi a fazer comida típica e mergulhei de cabeça! Quando estou fazendo um personagem, gosto de viver aquilo. É muito diferente você falar “sei fazer galinha caipira” só por falar, e você realmente saber, por ter aprendido. E aconteceu isso comigo, aprendi de verdade! Uma senhorinha abriu as portas para mim, pegou a galinha no quintal dela e me ensinou. Fico muito feliz com isso, é diferente pra mim. Uma coisa que o Sergio Penna (preparador de elenco) trouxe para mim e agradeço muito, e levo, é que faz toda a diferença você viver as coisas. Você pode ter uma cena sem falas, mas se pegar a experiência que ela proporciona, terá sido muito melhor.

E esse preconceito que a Raquel enfrentou, já aconteceu com você?

Muita gente acha que em pleno século XXI não existe, mas existe, sim! E o fato de ser atriz não muda isso. Há poucos meses, no sinal, um cara me ofendeu pela minha cor. Parei até o carro porque fiquei muito alterada. Nessas horas, você não sabe o que fazer, fica paralisada! E é o que acontece com essas pessoas que sofrem, empregadas domésticas que ouvem ofensas e têm medo de perder o emprego e não rebatem. Mas, graças a Deus, as pessoas hoje estão mais conscientes e se defendendo, sabe? Antigamente, elas não tinham essa força. Quando você vê um fazendo e falando, tem a representatividade e te dá mais amparo para falar sobre.

Mas o que aconteceu no sinal?

Sabe quando o sinal está aberto, mas não dá tempo de passar todo mundo, e acaba ficando tudo engarrafado, sem ter muito o que fazer? Aconteceu isso, e a traseira do meu carro ficou com a metade para fora do cruzamento. Aí esse homem abaixou o vidro, pra fazer gracinha aos outros, e disse: “Tinha que ser neguinha, mesmo”. Isso aconteceu perto do Barra Garden, em um bairro nobre do Rio. Fiquei apavorada, não por causa dele, mas porque sou aquela pessoa certinha do trânsito. Então, depois da ofensa, tive que parar o carro e respirar porque estava muito nervosa. Minha primeira reação foi pegar a placa dele, mas fiquei tão agitada que não consegui memorizar, eram tantas letras, números, desespero e raiva, que acabei deixando pra lá. Até porque “tudo o que você faz, um dia volta pra você”.

E esse é o tema da novela, né?

Exato. E a vida é muito isso! Acredito muito na lei do retorno, como 2 e 2 são 4.

Teve algum momento da sua vida que concluiu isso?

Há sete anos, vim para o Rio de Janeiro pela primeira vez, como turista. Um dos pontos turísticos que queria conhecer era o Projac. Fui lá apenas para tirar uma foto na porta, e não me deixaram registrar esse momento. Dois anos depois, entrei pra Suburbia. O mundo dá voltas, né (risos)!

 

Taís Araújo hoje é uma referência, e você está indo pelo mesmo caminho...

Ela também é minha referência e tenho muito por ouvir... muitas meninas me mandam mensagens, veem na rua e dizem “mudei meu cabelo por sua causa”, “você me representa”, frases bem marcantes, sabe? Como elas estão bem mais conscientes hoje, chegam para mim com um discurso forte, e não apenas falando “ai, te adoro”.

E de onde veio toda essa fortaleza para ser um espelho para as outras meninas?

Primeiro veio da minha criação, mineira. Fui uma menina criada com vó e com mãe, fazendo tudo mais certinho, trilhando tudo direitinho. E penso: “Se eu sou representante de alguém, que elas se espelhem num bom exemplo”. E o exemplo que eu digo é de estudar, ir atrás das coisas com verdade, sem passar por cima de ninguém, assim como eu fiz, que estava lá gravando minha novela, quando vieram e me convidaram para O Outro Lado do Paraíso. Sabe essas coisas que Deus manda? Então quero muito que minha carreira seja assim, e que essas jovens vejam em mim coisas realmente para se espelhar.

E quanto aos chamados “padrões de beleza”? Isso já incomodou você?

Quando era mais nova, alisava o cabelo, porque achava ele feio e todo mundo alisava, inclusive minha mãe, Ernestina Gomes. E depois que o deixei  crespo natural, ela deixou o dela também. Então, pra mim, foi uma mudança de dentro pra fora. Pensei comigo: “Para entender melhor isso aqui, vou começar a aceitar não só meu cabelo, como meu discurso”.

E como é hoje sua autoestima?

É melhor! Mas como estou mais consciente, às vezes as coisas doem mais. Às vezes, os insultos me atingem mais forte pela consciência do que está acontecendo mesmo. Antes que eu não tinha (consciência), acontecia e eu não estava nem ligando. Então, hoje, algumas coisas têm me doído muito mais.

Se arrepende de algo que fez?

De nada. Apenas do que não fiz. Mas acho que se algo não aconteceu é porque não era hora. E depois acontece. Se não tiver que acontecer, é porque não era seu, era de outro. E assim vai!

04/01/2018 - 18:22

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